Entrevista: Prof. Rafael Mello, do Departamento de Computação, sobre experiência internacional com a Noruega
Fruto da conexão do professor Boban Vesin, da University of South-Eastern Norway (USN), com o professor Rafael Mello, do Departamento de Computação, uma produtiva parceria entre a UFRPE e a USN, da Noruega, vem promovendo intercâmbios de alunos entre as duas instituições financiados pelo governo norueguês, através de edital que oferece bolsas de estudo para alunos de graduação e pós-graduação, entre outros países, no Brasil.
Em 2020, uma comitiva da USN visitava a UFRPE para formalizar o acordo de cooperação internacional na semana em que foi decretado o lockdown, mas foi só após a pandemia da Covid-19, em 2022, que alunos da USN puderam chegar para cursar disciplinas na UFRPE que não possuem em sua grade curricular e realizar estágios em empresas locais como Cesar e Porto Digital. Em 2024, são alunos de Computação da UFRPE que estão em mobilidade na Noruega, cursando disciplinas, destacando a estrutura da instituição europeia e participando de pesquisa em conjunto com professores da USN.
A falta de cursos ministrados em inglês na UFRPE foi contornada pelos professores envolvidos no Departamento de Computação com mentoria extra e tutoria em inglês aos estudantes da USN, além da oferta do curso de Português como Língua Estrangeira (PLE) pelo Ninter. Já a presença dos estrangeiros na turma proporcionou um ambiente internacional aos colegas de curso, que também tiveram a oportunidade de conhecer sobre uma cultura nova e desenvolver habilidades linguísticas em outro idioma.
Comitivas da UFRPE e da USN realizaram visitas mútuas fortalecendo a colaboração em pesquisa e ensino internacional e a parceria é considerada um sucesso por ambas as instituições. O edital do programa de mobilidade acadêmica norueguês é periodicamente divulgado no site do CNPQ e aberto a qualquer área nos níveis de graduação e pós. Além da USN, com a qual a UFRPE já possui contato consolidado, outras instituições norueguesas também podem participar.
Entrevista: prof. Rafael Mello
Como a parceria com a Noruega e University South-Easter Norway (USN) se iniciou?
Minhas pesquisas.... Eu trabalho com o IA (Inteligência Artificial) na Educação. E fiz um pós-doutorado fora, em 2017, na Universidade de Edimburgo. O meu orientador tinha várias conexões. Até brinquei com o Robson (prof. Robson Medeiros, ex-coordenador da graduação em Ciência da Computação, Diretor-Geral do Instituto Ipê/UFRPE) que uma relação formalizada a gente tem realmente com a Noruega, mas tem como fazer as outras cooperações que existem informais depois. Esse professor do pós-doutorado, prof. Dragan Gasevic, tinha várias cooperações, e eu acabei interagindo com muita gente. Conheci dois pesquisadores, e a gente ia se falando, trabalho junto, publicação de artigo junto, nada formal, nem profundo, ia para um evento e a gente se encontrava, conversava, até que a gente encontrou um edital específico, que inclusive estava aberto até pouco tempo atrás, de novo, então pelo visto é bem periódico assim, dessa última vez o site do CNPQ divulgou de novo, “parcerias com a Noruega”, um edital do Governo da Noruega, e o que eles querem é expandir, não vou dizer exatamente como está escrito, mas querem expandir parcerias de integração entre alunos: querem que os alunos da Noruega saiam do país para experienciar outras culturas, aprender também, mas experienciar outras culturas, e a gente quer trazer também alunos de fora pra virem pra cá, pra que eles possam também estudar, claro, mas aprenderem a nossa cultura. Então, a pegada do edital é essa. Não tem dinheiro pra pesquisa, é dinheiro pra intercâmbio de alunos, em diferentes níveis. E aí, quando surgiu esse edital, meu colega prof. Boban Vesin, líder principal do projeto na USN, entrou em contato comigo: “tem esse edital, não dá muito dinheiro pro professor, mas é bem focado em uns cinco países, no meio desses o Brasil, e eu tenho interesse em mandar estudantes”. Inicialmente, eram bolsas pros alunos dele virem pra cá. Eu topei, a gente conversou e viu que ia ficar legal. Foi exatamente antes da pandemia. Pra vocês terem noção, veio uma comitiva da Noruega pra cá (2020), a gente fez uma visita na Rural, fez a assinatura do contrato, ainda era profa. Maria José a Reitora. E aí, no meio da visita, de segunda a sexta, na quinta-feira foi o lockdown, ficaram até preocupados se não conseguiriam voltar pra lá. Então teve esse percalço inicial, nesse projeto tínhamos seis bolsistas da Noruega pra vir e algumas comitivas viriam de tempos em tempos. E eles vieram de novo no final do ano passado (2023).

Então a gente começou o projeto mas logo em seguida deu pause, porque teve uma pandemia, ficou tudo standby, quando passou a gente começou a dar o restart. E algumas pontuações: o primeiro problema, por mais que os alunos tenham muita vontade de aprender português, eu acho que seria muito bom se o Ninter (Núcleo de Internacionalização, Ipê-UFRPE) pudesse ofertar a turma de Português como Língua Estrangeira (PLE) de maneira mais constante. Quando a primeira aluna veio, a gente teve uma oferta e ela adorou. Quando os outros dois alunos vieram, em outro semestre, essa oferta não estava aberta, estavam selecionando monitores. Não prejudicou a visita deles mas ajuda muito, claro, porque eles se enturmam também numa turma de estrangeiros. E segundo, o que combinei com eles foi: essa questão de não ter curso em inglês vai ser um desafio pra todos. Não ter curso em inglês é realmente bem complicado. Mas o que eu combinei com os professores de lá e os alunos que a gente conversa antes também, é que a gente iria ofertar para esses alunos cursos que fossem extremamente práticos, um mínimo de teoria possível e mais aulas de laboratório. E os professores desse curso iriam se comprometer a fazer uma monitoria, mentoria ou algo do tipo com os alunos fora da sala. Então, as aulas continuaram em português, eles poderiam ir para a aula, os professores passavam o conteúdo (e aí a gente tem uma vantagem, os “vídeos da pandemia”, os professores se comprometeram a botar legenda nos vídeos), e assim os alunos assistiam aos vídeos e os professores faziam uma mentoria em inglês com os alunos, para que eles acompanhassem os assuntos. Disciplinas 30% teórica, 70% prática. A gente colocava no grupo os alunos que tivessem facilidade de falar inglês e os noruegueses estavam interagindo ali o tempo todo. Então funcionou dessa forma, tem funcionado dessa forma. Foram dois semestres e três alunos. Primeiro uma menina, a Alexandra Hovdahl, depois dois meninos, Mohammed e Luqman Khokhar. Passaram um semestre aqui e funcionou bem, nesse esquema. A gente tem vontade, no Departamento de Computação, de ofertar disciplinas em inglês mesmo. Acho que se a gente conseguisse fazer isso seria excelente. Mas se a gente sempre deixar claro desde o princípio, com esses parceiros, que o esquema vai funcionar dessa forma, eles não tiveram problemas. Pelo menos comigo, não sei se os alunos falaram bem porque eu estava liderando aqui, mas todos agradeceram a oportunidade, disseram que aprenderam muito.

O curso de Computação lá na Noruega é um curso bem resumido. Vimos assim que eles tinham estudado para fazerem dois anos e meio a graduação, no máximo três. Então, muitas disciplinas que a gente tinha aqui pra ofertar eles nem faziam lá. Por exemplo a disciplina de Inteligência Artificial, que hoje todo mundo fala na computação, e eles não têm lá. Então, ficaram felizes de também terem essa oferta. E aí, só para completar esse programa, ele também prevê estágio. Então, a gente fez parcerias com duas empresas aqui de Recife, o Cesar e o Porto Digital. Os alunos vinham cursar três disciplinas no Rural e ficavam também estagiando. Passavam um período de quatro, cinco meses aqui, desse período, dois meses estagiando. Tinham também uma carga horária em que eles ficavam na empresa, o Cesar. Ofertamos também startups do Porto Digital, eles optaram pelo Cesar. De seis alunos desse edital, já vieram três.
Esse mesmo edital reabriu com a possibilidade deles pagarem para os nossos alunos irem para lá. O líder na Noruega disse que também queria fazer e eu, que pra gente era interessante. Também entraram os Estados Unidos entre esses países, mas na nossa parte, Brasil, o que entrou foram alunos de graduação e pós irem pra lá. Esses alunos vão cursar as disciplinas e têm uma carga horária de pesquisa específica associada a esse professor lá. Então, o edital norueguês tem pra qualquer curso e pode enviar aluno de qualquer curso, mas o convênio que fizemos é associado a esse projeto de pesquisa na USN, que está relacionado à computação, e selecionamos alunos da computação. Atualmente tem três alunos da Computação lá que devem voltar mês que vem (junho 2024), Hyan Batista, Moésio Filho e Gabriel Barbosa.

Pra terminar, duas coisas: o edital já abriu de novo, nesse ano de 2024, e a gente já submeteu de novo pra ter ainda mais bolsas. Tanto pra vir pra cá, quanto pra ir pra lá. Então é um edital que tá sempre acontecendo. Quem tiver algum interesse com a Noruega em geral, não necessariamente apenas a USN, eu acho que é uma coisa que vale a pena olhar. E a outra coisa, eu considero que tem sido um convênio de sucesso. A gente tem feito os intercâmbios, o pessoal tem vindo visitar, a gente já foi uma vez também. Alguns professores nossos visitaram a USN, tem algumas fotos, o Instituto IPÊ já publicou no Instagram, a gente também tem foto da gente lá.

Sempre professores da Computação para a USN?
Isso, a gente foi com alguns professores lá da Computação. Tem gente que está envolvida diretamente no projeto, temos alguns professores para quando os alunos vêm, a gente sempre deixa eles alocados, apesar de não ter uma alocação oficial aluno-professor. O mentor é mais dedicado à disciplina e o tutor para quando tem problema, por exemplo, quer reservar um apartamento para morar e tudo mais, aí ele sempre adota o professor. Nessa visita, também levamos a professora Tatiana Pontual, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Informática Aplicada (PPGIA), porque a ideia é que esse convênio também chegue no mestrado e aí Tatiana foi para apresentar o nosso mestrado e dizer as possibilidades.
O que seu olhar como professor acha interessante extrairmos dos alunos como relato dessa experiência?
Claro, eles sempre vão ter a experiência de ter uma aula com um professor diferente, um curso diferente. Mas, na minha visão, sinceramente, acho que o conteúdo que eles vão aprender é o mínimo que eles vão ter. Pelo que vimos, nós que demos assistência a todos, nós temos professores dos mesmos que eles têm lá. Acho que o principal realmente é como foi a interação com os outros alunos, as experiências culturais. E olhando para o futuro, o que isso abriu? Porque um desses três alunos nossos que foram, era a segunda viagem de avião dele, e foi para uma mobilidade na Noruega! Converso com eles e dizem “eu nem sabia que existia um mundo além de Recife, além de Pernambuco”. Então, perguntar em relação às experiências extra-classes e em relação ao que acham para o futuro que a experiência proporcionou e abriu, acho bem interessante. E claro, a gente está na academia e tudo mais, mas minha impressão é que a resposta deles é que os cursos foram muito bons, mas aprenderam como nos cursos da Rural. A diferença é realmente a instituição, uma instituição muito boa, super equipada, e as diferenças culturais. No caso dos alunos daqui com os alunos que vieram de fora, também foi mais proveitoso para os nossos alunos. Eu sou muito focado em pesquisa, então tenho um grupo de pesquisa, a gente se encontra pelo caminho, mas é só um aluno. Se você traz dois, três alunos pra cá, todo mundo ali do grupo tem que falar inglês pra interagir. Todo mundo do grupo vai conhecer outra cultura. Então, por mais que não esteja imerso na cultura, tem essa parte.
O que acha que a experiência mudou?
Teve uma das disciplinas, que eu era professor na época, ofertada pra essa primeira aluna, eu fiz assim, disse ao pessoal: “eu vou dar duas vezes a mesma aula, uma em inglês e uma em português”, porque eu também queria ter experiência da aula em inglês. Mas os alunos não queriam ver a aula em português depois. Disseram, “olha, a aula em inglês já foi suficiente, já gostei, tem uma dúvida ou outra que eu tiro em português”. Eles conseguiam integrar bem com os estrangeiros, sempre estavam saindo juntos. E quando vieram os dois alunos para cá, quando tentavam colocar os dois no mesmo grupo, alguém lembra “não, por que não divide os dois? Porque a gente tem a experiência de interagir com eles”. Eu acho que foi legal ir nessa linha.
Antes e agora, novamente, você retorna a esse ponto da experiência da aula em inglês. Como poderia ser realmente algo estabelecido?
Falando particularmente, eu tentei entrar naquele programa do Ninter (o Collaborative International Online Learning, Match COIL), mas achei tinha um overhead de coisa burocrática para se resolver. Aí se você já tá cheio, com tantas coisas, dar sua aula, além disso ter um processo, o curso tem que aceitar, o diretor tem que aceitar, não lembro como tá hoje, lembro quando tentei mas que tinham vários aceites pelo caminho, enfim, acabei parando. Depois comentei com Robson, que até mês passado era o coordenador do curso de Computação, a possibilidade da gente criar de fato uma disciplina no curso que fosse toda em em inglês, coloca-se a ementa em inglês, a referência biográfica em inglês e diz que a disciplina será mesmo ofertada em inglês.
Institucionalizar a disciplina, a exemplo de outras universidades.
Isso. Por mim eu conseguiria dar todas as disciplinas que eu oferto normalmente em inglês. Não seria problema. E pela experiência que a gente teve com os alunos nessa disciplina que eu falei, tendemos a achar que os alunos daqui não vão saber. Eram 30 alunos, uma estrangeira e 29 daqui, e eles assistiram o curso em inglês com o conhecimento deles. Então, se a gente tiver um caminho das pedras para fazer isso de forma fácil, eu topo.
Bom conhecer esse retorno, quando a gente se comunica. Também seria interessante termos o acesso ao edital para divulgar para outros(a) professores(as).
No site do CNPQ tem sobre duas possibilidades, dois editais para a Noruega. O que eu participei, o que esse projeto tá dentro, é o edital UTFORSK. Acredito que eles estão abrindo sempre, porque só eu já submeti três vezes. A gente submeteu originalmente, depois a gente fez a renovação. E agora a gente já mandou outro. E, com a USN, pode até divulgar que a gente tem essa parceria com a universidade. Ver se os professores olham, porque eu posso fazer um contato. Temos contato com o pessoal da Internacionalização, a pessoa veio visitar a Rural, por ela eles têm superinteresse nessa internacionalização. Já conhecem a nossa universidade. Então acho que seria mais fácil pra abrir para outros cursos também: se quiser fazer o contato com alguém de Veterinária lá, por exemplo, é bem fácil porque a pessoa de Internacionalização de lá já faz. Só precisa dar uma olhada pra ver quais cursos tem lá, a área, e a gente faz esse contato. Estou à disposição.
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