"A construção de um futuro melhor depende da união entre os países, do diálogo entre as culturas e da valorização da história. A educação é fundamental para promover esse processo". Prof. Arnaldo Sucuma

Prof. Arnaldo Sucuma

Figura de importância no cenário acadêmico brasileiro e grande conhecedor de Guiné-Bissau, seu país natal, o Professor Arnaldo Sucuma, da Universidade de Pernambuco (UPE), representante da Universidade Amílcar Cabral (UAC) no Brasil, concedeu uma entrevista ao Núcleo de Internacionalização (Ninter) do Instituto Ipê da UFRPE sobre a importância da cooperação entre o país latino e a nação africana, principalmente no âmbito educacional.

A conversa abordou a história, a cultura e o desenvolvimento da Guiné-Bissau, ressaltou a importância do legado de Amílcar Cabral, líder da independência do país, e a contribuição de intelectuais brasileiros como Paulo Freire na formação da educação dos guineenses.

Sucuma destacou a atuação das áreas de expertise da UFRPE, intensificando suas ações de internacionalização na próxima sexta-feira, 14 de junho, quando a Reitora da Rural, Profa. Maria José de Sena, receberá o Reitor da Universidade Amílcar Cabral,  Prof. Me. Herculano Arlindo Mendes, em viagem ao Brasil para celebração do convênio internacional.

"A interiorização é um passo fundamental para fortalecer a universidade e garantir que ela atenda às necessidades da população local. Agora, com a internacionalização, podemos ampliar os horizontes e contribuir para o desenvolvimento entre países", disse o professor, que vê na parceria uma oportunidade de crescimento para que a "Amílcar Cabral, ainda jovem, possa oferecer melhores condições de formação, impactando a vida da população guineense, principalmente aqueles que mais precisam".

A conversa também aprofundou a importância da cultura, da luta pela liberdade e da necessidade de combater o racismo. Sucuma destacou a importância do diálogo, da troca de experiências e do desenvolvimento de projetos conjuntos, como eventos internacionais, pesquisas em rede e ações de extensão.

 

Entrevista: Prof. Arnaldo Sucuma

Professor, a intenção da conversa é propor uma introdução à visita da comitiva guineense à Rural. 

Para nós é uma grande satisfação poder, de fato, participar dessa troca de cooperação entre a Rural e a Universidade Amílcar Cabral. A Guiné-Bissau já tem uma relação de parceria com o Brasil por muitos anos. Eu mesmo me formei no quadro de acordo de cooperação entre Brasil e Guiné-Bissau, no âmbito de PEC-G e PEC-PG. Então, portanto, enquanto Guiné-Bissau é sempre uma satisfação manter esse vínculo. A gente sabe que a experiência da Rural enquanto universidade está mais à frente do que a universidade Amílcar Cabral, que é mais nova, muito recém-criada, há poucos anos. Então, para nós é uma grande satisfação. A Rural já formou alguns ministros de Estado na Guiné-Bissau. Estudantes que se formaram pela Rural e, no decorrer da vida pública, ocuparam cargos de ministros, dando uma contribuição para o país. Isso é de grande relevância. Fora na parte técnica, também, contribuindo com o desenvolvimento de Guiné-Bissau. Então, acredito que esta parceria, que pela primeira vez está acontecendo com a universidade pública Amílcar Cabral, vai ser certamente de grande relevância na troca, seja na graduação e na pós-graduação.

 

O senhor havia mencionado que havia uma escolha ou direcionamento com relação à Rural. Seria por conta das áreas em comum?

É, a Rural tem cursos em áreas humanas, e na área de agronomia, veterinária e zootecnia. Essas últimas são áreas que ainda não existem na Guiné-Bissau enquanto curso. Então, é uma possibilidade com potencialidade de serem tratados, posteriormente ao acordo, para ver de que maneira possa haver uma troca no que vocês têm e no que a gente também tem, para que possamos trocar as nossas experiências no campo da agricultura.

Então, essas áreas, educação, humanas, ciências, agronomia, veterinária, zootecnia, são de grande relevância. Até porque a Guiné-Bissau é um país que tem a agricultura como uma das suas principais vocações. E tem também a pesca porque, na nossa região, o nosso mar e os nossos rios são de grande potencialidade do ponto de vista da pesca. Então é uma das áreas que a Rural tem e que poderia ajudar muito a Universidade Amílcar Cabral que, por sua vez, pode fazer pontes com as outras necessidades que possam surgir no Ministério das Pescas e de outros setores correlacionados que dialogam com as áreas de expertise da Rural. Dentro dessas áreas, creio que há muita coisa a fazer em relação a esta parceria.

 

O senhor começou a falar um pouco sobre a Guiné-Bissau do ponto de vista das potencialidades mais técnicas da Rural e que, na verdade, também o país pode se afinar nesse estreitamento de cooperações mútuas e colaborações nesta ponte. Mas quero aproveitar também para falar brevemente sobre o país, é interessante pra gente também acompanhar um pouco da Guiné.

A Guiné-Bissau é um país localizado na costa ocidental da África. Fala mais de 10 línguas, com mais de 10 grupos étnicos, cada um com a sua cultura e riqueza. Dentro da língua, a cultura, os hábitos, religiões e outros componentes que influenciam a cultura. Também é um país banhado pelo Oceano Atlântico, formado por mais de 80 ilhas, com a parte territorial muito rica em manguezal, na perspectiva da sub-região da costa ocidental da África. Tem várias tradições riquíssimas, e uma população que, segundo o último censo, é acima de 1,5 milhões. Mas isso já faz muitos anos, e não se tem um censo novo. Hoje, provavelmente, a população chega a 2 ou mais de 2 milhões, se for fazer o novo censo. Mas é um país muito jovem. E tem essas potencialidades que eu mencionei há pouco, e acredito que nessa relação com o Brasil, que inclusive tem brasileiros morando lá na Guiné-Bissau, dentro do quadro de cooperação em diferentes áreas, seja no campo da relação institucional, dos estados, no campo religioso, e no campo das organizações da sociedade civil, existem muitas cooperações nessa perspectiva. A grande parte da população também é formada por mulheres. Um dado mundial também, coisa que acontece no Brasil e no mundo como um todo. É um fato que demonstra que também há uma dimensão que precisa ser ampliada no âmbito do diálogo inter-gênero, nessa perspectiva. E tem muita coisa que pode haver também de troca no campo das culturas, das tradições, que são muito parecidas em muitas questões, tanto na área de saúde, quanto no campo da cultura. Acho que a Guiné-Bissau tem o melhor nessa perspectiva para oferecer, em relação às trocas que são possíveis.

 

Aproveitando essa fala, o senhor mencionou a juventude do país, e eu lembro do Amílcar Cabral. O senhor pode nos falar um pouco dessa relação?

Amílcar Cabral, que é o líder da independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, foi um líder que sempre apostou nas crianças e jovens. Isso tanto nas suas produções, que já colocava nas suas memórias, de que o futuro do país está na mão das crianças e jovens que, de fato, depois da luta da independência, tomariam à frente do país para trabalhar, para recuperar não só a memória do país, mas a identidade do país, e trabalhar pelo desenvolvimento humano, na perspectiva da cultura local, não na perspectiva ocidental, mas na perspectiva da nossa identidade nacional.

Então Amílcar Cabral, além de líder da independência, também era um intelectual. Ele liderou a luta da independência, unindo os conhecimentos teóricos, e defendia que a vitória da luta da independência precisava de elementos da teorização, para dar a vida, o estímulo, no sentido da luta que estava sendo travada, o propósito daquela luta. Ele era um marxista e defendia a construção e a participação popular, tanto na luta quanto na construção do futuro do país. Ele produziu vários textos que hoje são estudados nas universidades, em várias universidades pelo mundo. Inclusive, a Universidade Pública na Guiné-Bissau, em homenagem a ele, leva o nome Amílcar Lopes Cabral. Isso mostra que ele também era um líder internacionalista. Ele transitava nesse diálogo com grandes líderes africanos, como Mário Cabral, Julius Nyerere, e vários outros intelectuais, como Nelson Mandela, entre outros. De fato, isso fazia muito bem, esse trânsito entre os intelectuais africanos, mas ele também tinha trânsito a nível de lideranças, fora do contexto. Tinha esse trânsito e, precisamente, de pensar num sonho de panafricanismo, essa unidade entre os povos da África, para a manutenção de suas identidades, porque são vários povos. Em cada país, você tem vários povos, e aí o continente também é representado por vários povos. E isso demonstra a versatilidade de Amílcar Cabral, enquanto líder político, intelectual, líder de movimento da sociedade civil, e também um humanista que lutou pela liberdade, o humanismo. Isso hoje, faz necessário estudar Amílcar Cabral, porque ele contribuiu não só pela fragmentação, mas também a nível de diálogo, dos países que falam português, como Moçambique, São Tomé e Príncipe, Angola. Então, havia todo esse diálogo com esses líderes, e que para nós é de grande relevância.

 

Brasil, Paulo Freire. 

Cartas a Guiné-BissauSim, Paulo Freire esteve em Guiné-Bissau, contribuiu no campo da educação. A luta pela independência tinha várias frentes: diplomática, da educação, armada, e precisou haver uma luta armada para obter a independência, porque Portugal não estava disposto a conceder a independência política. Então acabou se arrastando pela guerra armada. Paulo Freire contribuiu muito na área da educação, logo depois da independência, quando se estruturou o governo da Guiné-Bissau, com diversos comissários, que hoje chamam de ministros. E o comissário para a área de educação, um engenheiro, Mário Cabral, ele trabalhou com Paulo Freire. Ele foi um dos intelectuais brasileiros que assessorou o Mário Cabral na agenda de educação, criaram unidades de educação em diferentes regiões da Guiné-Bissau, para a formação da juventude. E hoje, muitos são quadros excelentíssimos na Guiné-Bissau, dando as suas contribuições a nível do estado, no setor privado, empresarial, no mundo da literatura. Então, isso para nós já mostra um vínculo entre Pernambuco e Guiné-Bissau, na pessoa de Paulo Freire. E claro que depois de Paulo Freire vieram vários outros pernambucanos que colaboraram, direta ou indiretamente, no processo de estreitamento das relações entre Pernambuco e Guiné-Bissau. Tem até o livro, "Cartas à Guiné-Bissau", que expressa o diálogo entre Amílcar Cabral e Paulo Freire, pensando a construção do sistema educacional na Guiné-Bissau.

 

E cá estamos nós.

E cá estamos nós, tentando dar continuidade ao que começou lá atrás. E creio que isso, com certeza, tem tudo para render frutos que possam de fato servir, não só para nossa geração, mas também para a geração vindoura. E a educação é o caminho principal para isso. Por isso, ela precisa ser acessível. Se a educação não é acessível, fica difícil a gente deixar frutos e resultados para a geração vindoura. Então, essa acessibilidade inclui também a solidariedade no campo econômico e acadêmico. O campo acadêmico é central, porque pode resultar em consequências econômicas, sociais, e outras. Mas, então, por isso, o foco na perspectiva acadêmica é importante dentro dessa chamada cooperação Sul-Sul. Porque aí ela envolve também a questão de partida de experiências tecnológicas entre as partes. Principalmente a parte que tem mais expertise e que possa auxiliar a Guiné-Bissau, também no avanço do ponto de vista da tecnologia moderna, no sentido da tecnologia digital, mas também de outros setores de engenharia. E que possam contribuir. Então, acho que essa troca é relevante. 

 

Inclusive o senhor mencionou que estudantes formados na Rural se tornaram ministros na Guiné-Bissau.

É verdade. Tem sim, tem esse feito. Eu lembro um deles, que é Arthur Silva, que estudou na Rural, e já ocupou cargo de ministro da Guiné-Bissau. E tem vários outros, que não me vem o nome agora, mas que eu sei que ocuparam funções. E outros que também se engajam em outros setores, fora do governo, dando sua contribuição para o país.

 

E sobre a Universidade Amílcar Cabral, o senhor também falou que, como o país, é uma universidade nova. E como ela está situada dentro desse país, em que contexto?

A Universidade Amílcar Cabral é maior universidade pública, tem cursos na área de humanas e tecnologia da informação. Os principais campus estão na capital. Mas existe esse projeto que sempre se colocou, internamente, de regionalização da Universidade Amílcar Cabral. Mas esse processo depende muito das decisões políticas, para poder levar campus de universidade para todas as regiões. Apesar de haver faculdade de medicina em algumas regiões, Bafatati, na região de Oia, em Masoa. Mas a nível da capital, tem vários campos que oferecem possibilidades de formações para diferentes cidadãos guineenses.

Então, ela tem um potencial, e tem contribuído do ponto de vista da formação, social e cultural. Mas eu ainda vejo muita potencialidade, de levar essa potencialidade, essas condições de formação para muitos outros cidadãos no interior da Guiné-Bissau. Sendo ela jovem, uma universidade jovem que foi criada nos anos 90, a concepção dela veio muito antes. Inclusive, ela foi uma composição de faculdades isoladas que já existiam desde o final dos anos 70. Faculdade de educação física, faculdade de direito, faculdade de medicina, que depois foram sendo incorporadas dentro do projeto da Universidade Amílcar Cabral. E isso contou também na fase inicial da institucionalização, em parceria com a Universidade Lusófona de Lisboa, de Portugal. Então, foi dentro de uma tentativa de colocar em prática a própria funcionalidade da Universidade Amílcar Cabral.

Hoje, depois de um certo tempo, a Universidade Amílcar Cabral ganhou sua autonomia e houve uma separação. A Lusófona funciona hoje separada da Universidade Amílcar Cabral, e hoje a Universidade Amílcar Cabral está com a sua autonomia, sua reitoria, funcionando dentro das suas possibilidades e limitações. Então, enquanto guineense, espero que haja mais possibilidades da Universidade poder crescer, e poder oferecer melhores possibilidades de formação e gerar impacto do seu trabalho para a população. E principalmente aquela parte da população que mais precisa.

 

O senhor falando, fui me lembrando muito da própria atuação da Rural, nos últimos anos, quando desenvolve esse olhar mais voltado para a interiorização. Sendo até diferente de outras no próprio estado e região.

Muito interessante. A interiorização simboliza uma capilaridade da universidade dentro da sua função social. Isso é muito interessante.

 

Tem algo mais que não foi perguntado, mas que o senhor gostaria de acrescentar?

Então eu só queria agradecer essa oportunidade de ser o facilitador dessa articulação entre a Universidade Amílcar Cabral e a Universidade Federal Rural de Pernambuco. Eu digo sempre que sou um sonhador, um sonhador que tem expectativa, sempre, de construir pontes: entre países irmãos, entre parceiros, entre seres humanos. Sempre no sentido de somar. Então, foi o que eu tentei fazer, junto com você, junto com toda a equipe do Instituto  da Rural, da Internacionalização da Rural, e também da Universidade Amílcar Cabral. E o que espero é que essa parceria possa render muitos frutos no futuro, frutos consolidados de troca, seja pelas pesquisas, pelos projetos de extensão internacional, diálogo em rede. Hoje, muitos se fala em diálogos em rede, pesquisa em rede. Então, eventos internacionais conjuntos de modalidades, seja presencial ou virtual, eu creio que são diálogos possíveis. Então, o meu papel é muito simples nesse processo, é de fazer ponte dentro desse sonho de internacionalização. Eu creio que, entre os países do chamado Consórcio Sul, pode render muito nessa perspectiva. Cada grão que nós formos colhendo, vai ajudar a construir o nosso crescimento mutuamente. 

 

Então feito, estamos fazendo a ponte. 

É verdade, é verdade. 

 

E as flores, como Amílcar Cabral chamava crianças e jovens, desabrocham lá na frente. 

Exato. Vão desabrochar, vão florir. É verdade, é verdade.

 

O senhor, falando da soma entre as humanidades, esteve há pouco na Serra da Barriga, recebendo uma professora de Santa Catarina e construindo um evento lá.

Sim, já aconteceu, na semana passada. Um evento da Universidade de Pernambuco (UPE), tivemos lá na Serra da Barriga, envolve a visita técnica para compreender a história da luta pela liberdade. Que hoje a Serra da Barriga do Palmares pertence ao município de União dos Palmares, em Alagoas. E foi muito importante mostrar para os nossos alunos que lutar pela liberdade é uma coisa sagrada e muito nobre. E só de se imaginar, imaginar que centenas de anos atrás, nós tivemos populações negras fugindo, buscando sua liberdade, fugindo de senzalas, fugindo de senhores de engenhos, os barões, em busca de suas liberdades. Então, muitos morreram, formaram diversas comunidades naquele complexo de quilombo dos Palmares, um complexo com vários quilômetros, que sobreviveram esses quilômetros, cuja sede ficava na Serra da Barriga. Essa sobrevivência durou mais de cem anos para ser destruída pelos bandeirantes contratados pela administração colonial para matar grupos de pessoas negras, que existiam para a sobrevivência. Então, foi muito boa aula de história, da memória, do resgate da identidade.

Depois, fizemos um debate mais ampliado para compreender esse processo histórico, e trazer à tona as consequências que isso trouxe para a sociedade, no nosso contexto atual, como se discute o racismo, o antirracismo. E as possibilidades que são oferecidas para descendentes dessa geração, que foi perseguida por séculos e séculos, impactados pela falta de acesso à educação, à economia, acesso às terras. Acesso a uma reforma agrária mais justa. Então, tudo isso é preciso trabalhar com os alunos, mostrar que é possível fazer uma justiça social, uma reparação, e com o intuito de ter uma sociedade um pouco mais justa, uma sociedade em que as pessoas possam ter o mínimo necessário. E que, nesse sentido, a Universidade tem um papel importante, de fazer esse debate e trazer contribuições, principalmente para a educação de futuros quadros, formados na Universidade.

Então, estamos aí, nessa estrada de construções, sempre de pensar nos caminhos possíveis dentro dessa sociedade humana, cheia de falhas e acertos também. 

 

Adubando esse jardim.

Isso, adubando esse jardim que é muito preciso, essa sinergia de forças, de experiências, contribuições diversas, e isso vai com certeza somar, fazer com que as flores desse jardim, e os frutos possam aflorar e trazer bem estar, conforto para cada cidadão que habita esse espaço da Terra.

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