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Nenhuma disciplina isolada pode enfrentar a complexidade das crises atuais. Sob tal premissa, a professora Flávia Peres, do Departamento de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação, Culturas e Identidades (PPGECI), levou nossa UFRPE ao Simpósio "ECO Partnership for Interdisciplinary Action" (ECOPIA), realizado entre 21 e 24 de abril na Universidade da Calábria, Itália. A Rural acrescentou estudos que conectam tecnologia, educação e agroecologia ao debate central do evento, que girou em torno da insuficiência do modelo convencional de "desenvolvimento sustentável", propondo em seu lugar um entrelaçamento de práticas e visões que protejam os bens comuns e combatam a perda da biodiversidade e a erosão social.

A missão também consolidou a integração da UFRPE à rede ECOPIA,  com a entrega oficial do Memorando de Entendimento (MOU) assinado pela Reitora Profa. Maria José de Sena. O gesto insere formalmente a Rural no grupo de 16 instituições de diversos países que buscam soluções interdisciplinares para as crises climáticas, sociais e epistêmicas que definem a era contemporânea. Além da articulação internacional, os trabalhos científicos apresentados abordam a memória biocultural e mecanismos digitais contra-hegemônicos na agroecologia, desenvolvidos em coautoria com os pesquisadores Dyego Moraes (DMULTS) e Renata Carvalho (RENOEN), atualmente em missões no Chile, com financiamento do CNPq e apoio do grupo de pesquisa DEMULTS (Desenvolvimento Educacional de Multimídias Sustentáveis).

O encontro ainda resultou no “Manifesto ECOPIA” como um espaço compartilhado de diálogo entre pesquisadores de todos os continentes. Reafirmando a estratégia de internacionalização da UFRPE, segundo a professora Peres,  “a ECOPIA propõe a convergência coral para modificar comportamentos coletivos e estruturas de poder, entendendo que nenhuma comunidade pode enfrentar sozinha os desafios atuais”.

 


Entrevista com Profa. Flávia Peres

Professora, o que motiva a UFRPE a integrar a rede ECOPIA e participar desta articulação internacional?

Acredito que a principal motivação reside no compartilhamento de princípios fundamentais. A Rede ECOPIA oferece a possibilidade de contribuirmos para a construção coletiva de um novo paradigma de cooperação entre o mundo acadêmico, outras instituições e a sociedade civil. É uma proposta de transformação territorial por meio de uma plataforma aberta à escuta e à experimentação compartilhada. Vivemos uma era marcada por múltiplas crises interconectadas — humanitárias, ambientais, sociais, políticas e epistêmicas — que ampliam o fosso das desigualdades e promovem a erosão dos bens comuns e da biodiversidade. Na UFRPE, esses temas já pautam nosso trabalho, mas entendemos que somar esforços com

pares de diferentes contextos e singularidades territoriais fortalece nossas ações locais. Temos exemplos práticos dessa convergência no Bacharelado em Agroecologia, no Programa de apoio à consolidação da extensão universitária da Pós-Graduação da UFRPE, em projetos como o de Educação Alimentar e Saúde, coordenado por Mônica Folena, com o envolvimento do PPGECI, PPGEC, RENORBIO e várias Pós-graduações. Outro exemplo é a Jornada da Terra, que promove reflexões críticas e ações práticas nos territórios. Todos esses projetos falam a mesma língua da Rede ECOPIA: a busca por espaços coletivos de transformação, contextos mais justos e inclusivos, por meio do diálogo de saberes.

Como a senhora descreveria o conceito de "convergência coral" e como ele se aplica na prática?

A "convergência coral" evoca a ideia de múltiplos corais convergindo para um mesmo ponto sem a necessidade de uma regência centralizada. É a capacidade de entrelaçar saberes, práticas e visões para além de fronteiras geográficas, institucionais e epistêmicas. É o que poderíamos chamar, inspirados em Nêgo Bispo, de "confluências": encontrar caminhos comuns contra-hegemônicos apesar das singularidades de cada povo e cultura. É uma ideia complexa que aposta na potência das múltiplas vozes que, mesmo em sua diversidade, buscam pontos de convergência transdisciplinar.

Qual a importância do Memorando de Entendimento (MOU) assinado com instituições de tantos continentes para a UFRPE? 

Este documento formaliza justamente essa "convergência coral". A importância reside na multiplicidade de parcerias em nome de uma rede que compartilha princípios comuns e se desafia a construir transformações sociais e ecológicas baseadas nesses valores.

Sobre o Manifesto ECOPIA: quais são os pontos mais críticos definidos?

O Manifesto está em processo de construção coletiva, tendo sido amplamente debatido durante a pré-conferência na Itália. Ele se baseia em princípios como interdependência sistêmica, justiça ecológico-social, transdisciplinaridade, descolonização do saber, regeneração territorial e economia do cuidado.

O ponto mais crítico é o desafio de colocar a justiça social e ecológica no centro dos processos de transformação. Precisamos que o conhecimento seja dialógico e situado, e que a transição ecológica não seja vista apenas como uma mudança tecnológica, mas como uma transformação cultural. Enfrentamos contradições internas em nossas próprias instituições, que muitas vezes adotam soluções aligeiradas baseadas na automatização e na inteligência artificial controlada por grandes corporações, cujos modelos são incompatíveis com as propostas da ECOPIA. O nome "ECOPIA" ressoa com a ideia de uma utopia necessária: horizontes sonhados que, embora difíceis de realizar a curto prazo devido às amarras do modelo socioeconômico atual, guiam nossas ações presentes.

Como o conceito de "desenvolvimento sustentável" é criticado e qual a alternativa proposta pela rede?

O conceito de desenvolvimento sustentável foi rapidamente consolidado, mas falhou em transformar comportamentos coletivos e estruturas de poder. Ele acabou cooptado por grandes corporações que priorizam o lucro em detrimento da vida. O próprio prefixo "eco" tornou-se uma ferramenta de marketing para modos de vida devastadores — como vemos em certas vertentes do ecoturismo de massa.

A alternativa proposta pela rede passa por processos transdisciplinares e interculturais. Nenhuma disciplina ou comunidade conseguirá, isoladamente, gerar novos modos de habitar e regenerar o planeta. Apostamos em uma "utopia concreta", um horizonte que nos convoca a sair da inércia em direção a propostas práticas, afetivas e transformadoras.

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Como o grupo de pesquisa DEMULTS pretende incorporar as visões discutidas na Calábria em suas produções?

O DEMULTS reflete criticamente sobre o uso e o desenvolvimento de tecnologias digitais. Há uma contradição inerente: embora utilizemos a virtualidade, o modelo hegemônico de desenvolvimento tecnológico é ambientalmente devastador e centralizado.

Incorporaremos discussões de ponta, como a crítica ao Antropoceno, avançando para conceitos como “Capitaloceno” ou "Wasteoceno", que responsabilizam modelos específicos de consumo pela destruição de ecossistemas. Refletiremos sobre como romper com o domínio das corporações tecnológicas para buscar soluções que valorizem o pertencimento territorial. Nem tudo precisa ser digital; muitas soluções para os territórios estão em outros tipos de artefatos. Nossa pesquisa foca na conexão entre desenvolvimento técnico, educação e uma ética biocultural.

Há oportunidades imediatas ou futuras para alunos do PPGECI a partir desta parceria?

Sem dúvida. Estreitamos laços com pesquisadores da Itália, Nova Zelândia, Japão, Canadá, México, Colômbia e Chile. Estamos finalizando um projeto com o Centro Internacional Cabo de Hornos (Chile) que já envolve bolsistas. As discussões teóricas e os conceitos apresentados na Itália desdobrarão em novos projetos de cooperação internacional, permitindo que nossos estudantes aprofundem suas pesquisas em uma rede global de alta relevância.

O financiamento do CNPq foi decisivo para garantir esta articulação? De que forma?

O apoio do CNPq foi fundamental. Ele permitiu a ida de pesquisadores ao Chile e à Itália e garantiu o custeio de imersões em campo, como a que realizamos na zona rural de Catende (PE). É muito difícil consolidar laços internacionais e pesquisas de fôlego sem o investimento público que permite essa mobilidade e o intercâmbio de saberes.

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Como os trabalhos apresentados fortaleceram a participação da UFRPE no simpósio? 

Nossos trabalhos foram muito bem recebidos porque abordam a tensão entre ciência, tecnologia e ecologia. Apresentamos a memória como condição para a conservação biocultural, focando no desenvolvimento de artefatos com pertencimento territorial e participação de jovens. Outra frente discutiu mecanismos digitais contra-hegemônicos para a educação agroecológica. Mostramos como o design participativo e a educação popular podem transformar estudantes de meros usuários de tecnologia em sujeitos críticos, capazes de pensar o "coabitar" a partir de experiências imersivas na natureza, e também em desenvolvedores de artefatos, que podem ser digitais, mas são amparados por processos éticos de convivência com os territórios.

Diante das crises atuais, qual o papel das Humanidades na leitura da crise climática?

As Humanidades são essenciais para transformar hábitos e construir uma consciência crítica. Nossa leitura passa pela educação como peça-chave para o pertencimento territorial e para uma responsabilidade que não seja apenas com o "outro humano", mas com o planeta. O DEMULTS, sendo um campo interdisciplinar que une educação, computação e psicologia, coloca a subjetividade e a ética no centro do debate ambiental.

Além disso, trouxemos da conferência uma visão de "saúde ampliada" ou "saúdes nos territórios". Não se trata apenas da saúde humana física ou mental, mas do bem-viver de todas as espécies, uma noção de saúde que se amplia para o cuidado com rios, oceanos, solos. Por fim, reforçamos a importância da "memória biocultural": nos aproximar de conhecimentos de povos originários, camponeses e resgatar aspectos de sensorialidades e de uma relação corporificada com a natureza que fomos perdendo ao longo de nossa história como espécie. E quando falamos isso incluímos aí as marcações de raça, gênero, classe social que foram se mantendo hegemonicamente, e fazem parte de um projeto devastador e mesmo violento contra a vida. Mas é urgente atentar para outros modos de vida. Por exemplo, nos processos educacionais de desenvolvimento de artefatos, no DEMULTS, nas etapas iniciais do processo de design participativo, favorecemos momentos em que estar na floresta ou em convivência com áreas de mais proximidade à natureza, na zona rural, em contato com outras espécies e outras formas de manejo de agroecossistemas, marca os processos de subjetivação e é essencial para uma transformação ética. Transformação ética que o contexto contemporâneo exige. 

A Rede ECOPIA — que evoluiu da rede Routes Towards Sustainability (2012) para se tornar a Eco Partnership for Interdisciplinary Action — é hoje uma aliança dinâmica da qual a UFRPE se orgulha de fazer parte. Fortalecemos a rede com nossa experiência e nos fortalecemos com a compreensão de que as soluções coletivas são urgentes.

Instituições Integrantes da Rede Ecopìa:
Comprehensive Research Organization, Waseda University (Japan)
European Future Innovation System (EFIS) Centre (Belgium)
Frankfurt University of Applied Sciences (Germany)
ITESO – Universidad Jesuita de Guadalajara (Mexico)
Lincoln University (New Zealand)
Pontificia Universidad Católica de Chile, Santiago (Chile)
Pontificia Universidade Católica do Paraná, Curitiba (Brazil)
Universidad Católica de Colombia, Sede Bogotá (Colombia)
Universidad Católica de Córdoba (Argentina)
Universidad Iberoamericana, Ciudad de México (Mexico)
Universidad Iberoamericana, Puebla (Mexico)
Universidad Pontificia Bolivariana, Medellín (Colombia)
Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) (Brazil)
Università degli Studi di Ferrara (Italy)
Università della Calabria (Italy)
Uppsala University (Sweden)
(hereinafter the Promoting Institutions)

 

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